Não repita palavras sem querer


E também não use sinônimos sem querer

Ilustração: Fernanda Pompeu
Ilustração: Fernanda Pompeu

Não repita palavras sem querer. É fato que cada autor é senhor do seu texto. Ele pode escrever o que bem entender. Mas também é certo que uma postagem na internet concorre com mil outras mensagens. O leitor escolhe o que vai ler. E uma coisa que ele não gosta – ninguém aprecia – é um texto monótono.

Palavras repetidas, quando muito próximas, causam monotonia. Elas quebram o ritmo e diminuem a energia das frases.
Vai um exemplo:
Hoje visitei a velha estação de trem. A estação estava coberta de abandono. Porque, hoje, as pessoas parecem não dar bola para construções velhas como essa da estação de trem. Muitas pessoas só querem saber de coisas futuras. Dão bola só para coisas novas.

É possível compreender perfeitamente a mensagem acima.
Mas repare nas repetições:
Hoje visitei a velha estação de trem. A estação estava coberta de abandono. Porque, hoje, as pessoas parecem não dar bola para construções velhas como essa da estação de trem. Muitas pessoas querem saber de coisas futuras. Dão bola para coisas novas.

Às vezes na pressa de comunicar, quem escreve não atenta para “máquina das repetições”. Por conta disso é fundamental reler antes de postar. E se lembrar sempre que o português é uma língua rica em sinônimos. Existem até Dicionários de Sinônimos.

Vamos tentar reescrever o parágrafo, substituindo as repetições:
Hoje visitei a velha estação de trem. Ela estava coberta de abandono. Porque, no presente, as pessoas parecem não dar bola para construções antigas como essa. A maioria só quer saber de coisas futuras. Se importam apenas com novidades.
Veja que as repetições foram suprimidas sem arranhar o entendimento da mensagem.

Quanto mais curta a frase, mais chata soa a repetição:
para deixar claro o que penso. É clicar no link.
Ontem aconteceu um show. Aconteceu na rua Real Grandeza.
Tem crescido o assassinato de mulheres. Esses assassinatos são intoleráveis.
Ele chegou na cidade. Não tinha nenhum hotel aberto na cidade.

Vamos melhorar?
para deixar claro o que penso. Basta clicar no link.
Ontem aconteceu um show. Ocorreu na rua Real Grandeza.
Tem crescido o assassinato de mulheres. Esses crimes são intoleráveis.
Ele chegou na cidade. Não tinha nenhum hotel aberto.

No entanto, as repetições de palavras não devem ser condenadas ao fogo do inferno. Muitas vezes, reiterações são conscientes, propositais. Ajudam na ênfase. Dão músculos às mensagens:
A voz do povo é a voz de Deus. (ditado popular).
Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. (Drummond).
Ando com muitas dúvidas. Ando com muitas angústias. Ando com muitos medos.
Fulaninho chega, funalinho acha que está arrasando.

Então como é que ficamos?
Voltamos ao início do post: cada autor decide o que fazer com o seu texto. Ele escolhe se repete ou não repete palavras. Se for por descuido, falta de releitura, é ruim. Se for para marcar a ênfase é bom.

Lá vem o Houaiss:
“Ênfase: recurso linguístico para realçar enunciados em geral (pode ser lexical, sintático ou fonológico).”
Lá vem o Drummond:
“As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.”

Pergunta: Repito ou não repito palavras?
Resposta: Decida com consciência. Não escreva nada sem querer.

Para finalizar, vale ler essa passagem do escritor tcheco Milan Kundera. Nela ele reclama que a tradução francesa de um romance seu eliminou a repetição da palavra lar. Segundo ele, o uso de sinônimos para a palavra lar não só destruiu a melodia do texto, como também a clareza do sentido.

foto Milan Kundera
Milan Kundera. Fonte: The Guardian

Como Kundera escreveu:
O lar que eu traíra, mas que era ainda meu lar (já que o lamento mais pungente vem do lar traído). Mas eu compreendia ao mesmo tempo que esse lar não era deste mundo ( mas que lar é esse, se não é deste mundo). (…) Eu sentia que o chão desse lar fugia dos meus pés e que eu escorregava (…) Pensava com espanto que meu único lar era justamente essa descida, essa queda (…)”

Como foi traduzido:
“A casa que eu traíra, mas que era ainda minha (já que o lamento mais pungente vem do ninho traído). Mas eu compreendia ao mesmo tempo que ele não era deste mundo (mas que abrigo é esse, se não é desse mundo). (…) Eu sentia que o chão desse lar fugia dos meus pés e que eu escorregava (…) Pensava com espanto que meu único refúgio era justamente essa descida, essa queda (…)”

Você, leitor, fica com o autor ou com o tradutor?
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