Antes da escrita digital. Arquivo pessoal
Antes da escrita digital. Arquivo pessoal

Last updated on fevereiro 20th, 2018 at 08:00 am

Antes da escrita digital – fruto da internet, a escrita impressa reinou por 500 anos. A minha geração – nascidos nos anos 1950, 1960 – presenciou uma passagem radical. Pulamos da máquina de escrever para o teclado do computador.  Depois saltamos da informática sem internet para o mundo de hoje, com banda larga, redes sociais, inteligência artificial. E, é claro, para uma produção amazônica de escrita digital.

Eu comecei a perceber o impacto da mudança no meu trabalho – trazido pela internet – quando a jornalista e amiga Inês Castilho – hoje no blog Outras Palavras – machucou o braço, o que a impediu de realizar uma encomenda. Daí ela generosamente me indicou para o então editor do portal Yahoo Michel Blanco.

Tratava-se  de uma série em torno de mês de março – o mês da mulher.
Lembro do diálogo ao telefone:
Eu- Mas quantos toques (caracteres) terá cada artigo?
Michel – Ah, quantos você achar necessário.
Eu – Como?
Michel – Na internet cabe qualquer tamanho. Não existe o problema de espaço como nas publicações impressas.

Lembrei imediatamente de uma história saborosa. O editor de um grande jornal colombiano passava o dia ouvindo os redatores reclamaram da falta de espaço para desenvolverem suas matérias. Pois vinha tudo pré-determinado: Você vai falar da Guerra Fria em 3 laudas. O redator retrucava: Só 3 laudas? Daí o editor, de saco cheio, mandou confeccionar uma plaqueta com os dizeres: Falta de espaço? Reclame com a NASA.

Os escritores abaixo dos 40 anos, quando tenho a honra de encontrá-los, me perguntam como era escrever antes do computador. Melhor ainda, perguntam como era corrigir, trocar palavras, deslocar parágrafos sem os programas de texto.

As aspirantes a escritoras, menores de 30 anos, quando tenho a alegria de encontrá-las, indagam como era escrever sem uma tela para visualizar as palavras. Como era possível pesquisar qualquer informação sem o google?

Nessas ocasiões, me sinto encantada em desenhar a complicada máquina de escrever. Conto como era pôr, travar, retirar o papel. Como era trocar as bobinas das fitas de tinta preta e vermelha. E evoco o “branquinho da redação” – liquidozinho que fazia a vez da tecla del.

Agora o pessoal fica mesmo boquiaberto quando explico que medíamos a extensão do texto por toques. Isso mesmo: a tecla da máquina imprimia na lauda uma letra ou sinal, aí contávamos 1, 2, 20 toques. Fazia-se isso porque jornal ou revista são suportes físicos. Textos, fotos, ilustrações precisam ser rigorosamente medidos. Caso contrário, ou ficam demais, ou ficam de menos.

Para tirar cópias? Corríamos até a papelaria da esquina para xerocar, ou usávamos papel carbono na hora mesma de datilografar. Tudo muito tátil, muito físico. Também o envio do texto era pelo correio ou pessoalmente.

Contando dessa forma parece que estou descrevendo uma época situada na Idade Média. Época em que vampiros e demais fantasmas disputavam espaços com as pessoas. No entanto, há menos três décadas, o mundo dos escritores e jornalistas era assim.

O mais curioso é que quem viveu essa história não sabe exatamente como suportou um jeito de escrever tão detalhista e laborioso. Algum leitor ou leitora, nascido depois dos anos 1980, tem ideia do trabalho que dava rescrever um parágrafo? Ou mudar de posição uma mísera palavra? Uma magra frase?

Mas toda essa conversa é para dizer que algumas coisas do ofício da escrita digital ou impressa não mudam nunca. Se mantêm da pena de ganso ao Mac. Por exemplo, o momento dramático de começar um texto, cômico de continuá-lo, épico ao finalizá-lo.

E a sensação angustiante que desta vez, não importa que seja o milésimo segundo texto que você escreve, o trabalho pode não acontecer. Desta vez, talvez as palavras não pousem nos nossos dedos. Antes, era o medo do papel em branco. Hoje, é o da tela vazia. Dá no mesmo.

Brinde: Passagem tecnológica

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