Trem dos sonhos – escrita coletiva


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A proposta do Trem dos sonhos – escrita coletiva foi postada no Facebook. A partir do parágrafo A cidade toda madrugou. Todos correram à estação. Ninguém queria perder a chegada do Trem dos Sonhos, cada um deveria completar o comentário anterior. E o pessoal soltou os dedos e a imaginação nas teclas. O resultado foi um texto completo, tendo como protagonista o sonho ou os sonhos. O exercício também serve para demonstrar que afinal escrevemos por associações – modo que nosso cérebro adora. Uma coisa levando a outra e a outra e a outra. Observe:

Trem dos sonhos

A cidade toda madrugou. Todos correram à estação. Ninguém queria perder a chegada do Trem dos Sonhos. Sonhos carregados de amor e de chocolates. Chocolates feitos dos efeitos dos sonhos. Parados em silêncio, os moradores observavam o trilho. Na cabeça, a expectativa borbulhante de ouvir o sinal do trem. Passaram-se quinze minutos e nada. Sonhos na linha do trem. Alguns sonhos perdidos em estações desertas. Sonhos ou pesadelos, só a chegada dirá. E a paisagem se tornou bucólica ao acessar a biblioteca interna que interagia com aquele ambiente: filmes, músicas, passagens literárias. Até o pequeno Harry Potter com a sua coruja foi acessado nas lembranças, em função de uma passagem secreta na estação de trem. Anésia se recusou a ir. Pensava em como poderia apenas um trem trazer os sonhos de toda a cidade, já que todos eram tão diferentes entre si. Preferiu dormir e por alguns momentos ter a casa só para si. Era uma descrente e assim se manteria. Ora, onde já se viu um trem de sonhos!? Maluquice! Bah! Maluquices de sonhos. Sonhos são assim; uns tão reais e outros tão utópicos. Acho que por isso são sonhos. Pensou em desistir. Sonhos extravagantes, possíveis, irrelevantes, concretos, loucos como os materializados por Salvador Dalí. O trem era atemporal, com embarques para o presente, passado e futuro… com viagens extraordinárias. Todos em busca da ilusória felicidade. Felicidade que todos esperavam encontrar naquele trem dos sonhos. No entanto, sonhos são sonhos. Uns coloridos e outros cinzas. Mas Maria tinha com ela todos os sonhos do mundo e resolveu que embarcaria nessa aventura onírica. E no trem dos sonhos da cidade, ele chegou. Lindo, um príncipe. Perfeito, seu par. Era o trem dos sonhos, não? Perfeito como tarde de sol. O Trem dos Sonhos era uma sociedade secreta. Sempre que passava por uma estação, os membros diziam: O trem não descarrilhou. Ele deixou de ser secreto porque Maria embarcou, acreditando. Às vezes, eu sonho que sou o próprio trem, sempre de partida, sem olhar para trás, abrindo espaços no vento e deixando um rastro de sentimentos não compreendidos. Aqueles que ficaram na estação, esperavam um trem carregado de sonhos, deixaram de ver o cavalo passando rápido, sem montaria, sem sela e sem pelego. Eu estava na estação e meu sonho chegou com o trem, o sonho do fim da Direita. Acordei cedo, como todos. Corri para a estação, como muitos. A chegada de um carregamento de sonhos é uma boa notícia, mesmo que nem todos os sonhos sejam os melhores. Parado na estação, ouço o apito do trem e vejo sua fumaça. Os sonhos estão pertinho. E eu, à espera do trem, fiquei a imaginar que sim, o que havia sido imaginado realidade seria. Y yo tambien espero al tren y a Godot que se retrasa. E o trem dos sonhos também trazia, em seu bojo de ferro e madeira, minha bela Natércia, meu mais lindo sonho, minha quimera impossível! Na estação do tempo vendo o sonho passar, o trem descarrilhou sobre miragens que a realidade não pode chegar … Voei! E alcancei a mais bela das princesas da terra sem tempo. Mas havia uma pedra chamada realidade! Mas sonhos também podem ser perigosos e Maria sabia disso. Diferentemente do resto da cidade, que se juntou cegamente ao coro dos contentes, Maria ponderou. O sonho pode perder o encantamento quando vira realidade e Maria parecia ser a única a temer isso. Enquanto ponderava, lhe veio aquela conhecida sensação de vazio e desconforto: fome. Como uma resposta aos primeiros roncos constrangedores da barriga, a velha mulher surgiu com seu carrinho de delícias capazes de fazer retornar à infância qualquer azedo político nonagenário. O carrinho deslizava pelas pedras da estação abarrotado de reluzentes, açucarados e cremosos sonhos. O apito. O barulho. A fumaça. A ansiedade. Os olhos de todos postos naquele ponto da curva, ali, de onde o trem surgiria. E ele surgiu. Antonio fixou os olhos e apurou os ouvidos: dodeskaden... dodeskaden… dodeskaden… Era a hora exata. Antonio saltou sobre os trilhos e amor e chocolates terão que esperar. Alguns desceram do trem. Sonhos dos que chegaram, sonhos dos que os aguardavam e sonhos dos que seguiriam adiante. Em frente. Nova parada, outras pessoas, outra realidade. Feliz em sonhos de todxs. Sonhos recheados e sem recheios. Saltei feliz. E uma das normas é ser feliz por nada. O trem, com um sonoro sopro de ar ao estacionar, cortava o tempo das idas e vindas. E seguia seu rumo, indiferente às dores e aos sonhos dos que dele se apoderaram. Por que não posso também, eu, seguir como se carregasse inúmeras histórias dentro de mim? E o trem parte levando os sonhos embora, mas deixando pessoas alegres e esperançosas. Enquanto isso, no alto da torre, um mané xinga a esmo, desconexo balbucia satisfaction. E o trem chega vazio na próxima estação! Vinte minutos… passou o trem da ausência e ninguém quis entrar. Tenho medo de entrar no trem quando ele está lotado, mas não gosto de ver o tempo que passa, me atordoa. Era hora de parar. Mas parar em qual estação? Ainda não decidiu se irá para o leste ou para o norte. Se descer do trem, terá que encarar a realidade nua e crua. É o que dizia a placa: Realidade. Preferiu descer na próxima. Será que é a estação Futuro ou a Passado? Passado! Saltou rapidamente na esperança de poder mudar tudo. No trem do tempo se pode ir e voltar, mas para isso é preciso descer em alguma estação, só assim é possível seguir viagem, sempre pegando um novo trem, mas não descer, não fazer bagagem não garante viagem. Desço e caminho pensando: qual será o meu destino? Pensei nem destino eu tenho, se eu desci no Passado como posso pensar em destino? Não o tenho, mas eu posso mudar o presente que já vivi, por isso decidi descer aqui, será Possível? Desci no passado, revivi as memórias mais belas, matei a saudade de pessoas que já se foram, revi e aprendi com meus erros e depois de analisar todo meu passado decidi voltar para o presente, de onde nunca devia te saído. E foi no presente que me dei conta que havia muitos sonhos para realizar. Respirei fundo, tomei coragem e fui realizar o maior de todos os meus sonhos. O de poder construir um futuro ainda possível. Algo como garantir que, uma vez morto, o agente da funerária não dissesse: cadáver esquisito, o serviço será mais caro. Cadáver… Não era apenas um. Debaixo de um banco, outro corpo jazia. No dorso, sangrava sonhos e talvez chocolate. O apito soou e o cadáver desapareceu. Era sonho ou miragem. Mas o trem estava ali à espera, à minha espera. Não sei se embarco porque já não me lembro para aonde vai esse trem. O que faço? E o trem não trouxe o passado que pedi; continuo à espera do amor que ele levou. A espera do amor passou, assim como brisa leve que vem para acalentar. No peito surgiu uma força bruta, pulsante que a fez dançar sobre os seus medos. O trem ligou de novo, como um coração batendo a mil por hora e a todo vapor. O som forte da partida diz: estou chegando, meu amor. Eu estava em um trem, adoro ficar olhando as pessoas, imaginando suas vidas, seus sonhos, seus desejos mais profundos. Era um trem movimentado, um sobe e desce, tipo a vida, eu vendo a tristeza geral, a minha tristeza naquele canto de trem, aí me veio aquela: ai que saudade do meu ex. Estava chegando a próxima estação , senti vontade de descer do trem antes que ele parasse, quando ainda em movimento. Me lembrei que já fizera isso antes e senti falta daquele tempo em que agilmente descia do trem em movimento. Como um déjà-vu. Ou deixa fu… minha memória se embaralha, me abandona. Seriam esses sonhos madeleines? Fome. Já nem sei como tudo começou! Manhã, estação, cidade, trem, sonhos, chocolates. Alguém lembrou de Kurosawa. O rádio toca o trenzinho de Villa Lobos. E outra vez acordo com o despertador. Insisto em mais 5 minutos de soneca. E não é que vejo Anésia? Cheia de realidade dançando com os corvos de Van Gogh.

Se preferir ouvir

 

Autoras & Autores

A
Adriana Rafael. Alex Krüger. Ana Maria Valente Roveran. Ana Regina Machado. Antonio Pimentel. Aurea Alves.
B
Beatriz Cannabrava. Belkiss Nogueira. Bruno Antognolli.
C
Catarina Aversa. Cida Costa. Cidinha Morelli. Cristina Pompeu.
D
Dirce Puglia. Djalma Paz.
E
Eduardo Petrucci Gigante.
F
Fabio Mariano. Fernanda Pompeu. Flavia Kolchraiber. Flor de Lícia.
G
Genha Auga. Geraldinho Floriano. Gilson Gusmao. Graça Cassarotto Pontin.
I
Irene Bertazini Kabengele. Íris Solar. Ivy Menon.
J
Jackie Vellego. Julia Guarilha.
L
Lalá Gua. Lu Mota. Lucíola Pompeu. Lucy Intatilo.
M
Main Suaza. Malu Heilborn. Marcia Loretti. Marcia Maresti Lima. Maria Penha Rosa. Maria Olivia da Silva. Maria Vilani Madeiro. Mário Sérgio Baggio. Marisa Paifer. Meire Rioto. Monica Araujo. Mônica Macabú.
N
Nadia Lappas. Nêmia Ribeiro. Nina Moraes.
R
Rair Oliveira. Raquel Souzas. Rida Sabbagh. Roberto Rangel. Rosa Villaris Berto.
S
Salim Slavinscki. Sandra Jardim Oliveira.
T
Teresa Cristina Mafra
V
Vanda Martins. Vicky Weischtordt.
W
Walkiria Chassot. Wylma Mouradian.
Z
Zenair Ortiz.

Leia também dois textos coletivos do Acelera Texto:
Escrita de Observação
O último dia de Abril

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