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Last updated on julho 25th, 2019 at 06:55 pm

 

Entrevista com Fernanda Pompeu do Acelera Texto para o Jornal Brasil Atual, acerca de escorregadelas de figuras poderosas e públicas no território da Língua Portuguesa

Ouça Aqui:

Transcrição do áudio da entrevista

Rafael Garcia

O Jornal Brasil Atual conversa agora com a colaboradora da Rádio Brasil Atual. A nossa colunista para língua portuguesa, a escritora, roteirista Fernanda Pompeu. Olá, Fernanda. Tudo bem?

Fernanda Pompeu

Olá, Rafa. Tudo bem. Boa tarde.

Rafael

A coluna da Fernanda, aqui na Rádio Brasil Atual, na Ponta da Língua, está fazendo muito sucesso. A coluna dá dicas de português para escorregadelas que acontecem normalmente no uso cotidiano da língua. Mas a gente vai conversar com a Fernanda sobre as escorregadas, os acidentes que aconteceram nessa semana (abril 2019) fazendo como vítima a língua portuguesa. Isso ocorreu nas declarações do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Ele se referiu no Congresso Nacional à “conge”, errou também o verbo vir na sua conjugação. E também se equivocou no uso do “sobre” e “sob”. Nós já conversamos sobre essa liberalidade do uso da língua falada na conversa coloquial, no bar de botequim, digamos assim. Mas é importante que as pessoas tenham muito cuidado com o uso da norma culta da língua portuguesa, principalmente quando se vai escrever e quando se vai participar de um concurso público ou fazer uma entrevista de emprego. Aí a gente se depara com essas escorregadelas de uma pessoa que deveria ter um cuidado tremendo com a língua portuguesa. Dá para a gente dar uma aliviada no Sérgio Moro? Ou todas as críticas que ele vem recebendo são justas?

Fernanda

Errar todo mundo erra. É humano errar. Porém, todavia contudo trata-se de um juiz, ministro da Justiça, em uma situação formal e pública. Em relação ao “conge” dele que, na verdade, é cônjuge. Sei que essa é uma palavra meio chatinha, porque esse “ju-ge” é uma espécie de quebra-língua. Mas na verdade foram duas escorregadas dele com essa palavra. Cônjuge vem do latim e quer dizer, todo mundo sabe, esposa, esposo. Ela é uma palavra sobrecomum, ou seja, como a palavra criança. Não importa qual é o sexo, cônjuge é palavra masculina. O ministro escorregou duas vezes, ele fala “a conge”. Ele pulou o “ju” e errou o gênero da palavra. Por que as pessoas pegam no pé ? Porque trata-se de uma palavra do meio jurídico, é uma palavra usada, principalmente, em documentos oficiais. É um palavra de cartório. Na vida real, a gente usa marido/mulher, companheiro/companheira, esposo/esposa. Por conta disso, causou assombro um juiz errar uma palavra que deveria ser tão familiar para ele. Posto isso, acho que não é para ficar jogando pedras. Porque erra-se.

Rafael

Com relação ao verbo vir?

Fernanda

O verbo vir é um verbo bem perigoso. Primeiro é um verbo irregular. Ele não é fácil como o verbo cantar. Por exemplo, há um erro muito comum com o verbo Vir que é no Futuro do Subjuntivo, as pessoas falarem : quando eu vim ou quando ela vier. O certo é: quando eu vier, quando ele vier. Em outro tempo, as pessoas dizem: é para eu vim aqui? O certo: é para eu vir aqui? (no infinito). Ele também é um verbo complicado, porque se aproxima do verbo Ver – outro verbo bem difícil. Verbo vir: Ele vem. Verbo ver: Ele vê. A confusão acontece na terceira pessoa do plural. Eles vêm (verbo vir). Eles veem (verbo ver). É complicado, mas as pessoas têm que levar a sério esses dois verbos. O pessoal que faz concursos, vestibulares, os examinadores adoram perguntar pelos verbos Vir e Ver – devido a dificuldade deles.

Rafael

Mas tem mais uma do Moro. Essa é difícil da gente dar uma aliviada. Vou falar a frase “Se o conge vim a ser condenado sobre violenta emoção.”

Fernanda

Está tudo errado. Não é conge, é cônjuge. Não é vim, é vier. E é sob, abaixo de violenta emoção. Não é sobre. Pois sobre é em cima: “a comida está sobre a mesa”.
“O gato está sob a mesa” (embaixo da mesa). Aí foi um erro tripo. A sugestão que eu faço para o Moro é para ele dar uma olhadinha no meu blog Acelera Texto (www.aceleratexto.com.br).

Rafael

Agora vamos falar de uma outra coisa que aconteceu nessa quarta-feira (3 de abril, 2019) durante a reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para debater a reforma da Previdência. Houve várias derrapadas no uso da língua portuguesa, por conta de vários parlamentares presentes na sessão. Mas o que chamou a atenção foi o final, aquela confusão quando um deputado falou que o ministro Paulo Guedes é um “trigão” com os aposentados pobres e uma “tchutchuca” com os banqueiros. O que é “tuchutchuca” que deixou o Paulo Guedes tão nervosão?

Fernanda

Vamos começar pelo tigrão. Além de ser um tigre grande, quer dizer também uma pessoa fisicamente atraente ou dada a conquistas. Tigrão tem essa conotação. Você pode dizer assim: Ah, aquele cara tem pinta de tigrão. Sedutor, poderoso, impetuoso. Ou tigre grande – que causa medo. Foi interessante a brincadeira com esse “tigrão”, porque na sequência o Zeca Dirceu fala o “tchutchuca” – palavra inventada de uma música funk do grupo Bonde do Tigrão. Eu consultei e descobri que “tchutchuca” significa, na origem, mulher bonita, fofa. Lembro que quando alguém dizia fofo, também dizia que tchutchuca! Acho que isso que deixou o ministro da Economia Paulo Guedes bem nervoso. A intenção foi clara. Usar tigrão no sentido de poderoso com os aposentados, os vulneráveis, mas você é tchutchuca com os privilegiados. Tchutchuca é uma gíria muito utilizada no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro. O termo ficou muito conhecido no país com as músicas do funk carioca. E tem uma curiosidade: veja como a língua é viva. Atualmente, tchutchuca ganhou sentido pejorativo. É usado para chamar mulheres de baixo nível, vulgares. Em suma, talvez o ministro saiba desse significado atualizado e daí ficou muito danado.

Rafael

O ministro retrucou que tchutchuca é a mãe e a avó do deputado.

Fernanda

Aí ele piorou as coisas. Tem um ditado que fala “a emenda saiu pior que o soneto”. Ele foi emendar e piorou. Acabou ofendendo a mãe e a avó do deputado. Mas as mães sempre são ofendidas, né?

Rafael

Mas nessa caso, especificamente, quem foi agredida foi a língua portuguesa diversas vezes ao longo da semana. A gente agradece a participação da Fernanda Pompeu. E, é claro, que a gente brinca com essa situação, mas o que foi dito tem a sua seriedade. O que foi dito pelo Sérgio Moro e as discussões que envolvem a reforma da Previdência são muito sérias e as pessoas devem ficar muito atentas. A gente está brincando aqui, mas não é para desviar o foco. Atenção para essas propostas apresentadas, dia sim outro também, que retiram direitos ou atacam direitos do povo brasileiro. Direitos que foram conquistados com tanto sacrifício e suor. Fernanda, muito obrigado pela participação aqui no Jornal Brasil Atual trazendo mais curiosidades e tirando dúvidas de português dos nossos ouvintes.

Fernanda

É só chamar. Abraço.

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