Podcast AT com Regina Pereira


Para ouvir e ler

Fernanda e Regina
Fernanda e Regina

Fernanda Pompeu, do Acelera na Rádio Madalena –  a rádio com conteúdos mente aberta.
Hoje vamos conversar com a jornalista e revisora Regina Pereira.
Regina tem vasta experiência na área da revisão.
Ela trabalhou em jornais e revistas – na época em que os meios impressos empregavam revisores, pois se importavam com o bom português.
Hoje ela segue fazendo revisões freelance.

Ouça o podcast AQUI

Transcrição da Conversa

Acelera Texto
Regina, com a internet tem muita mais gente escrevendo. Ou seja, uma quantidade assustadora escreve. Será que não é uma questão de tempo para esses bilhões de escribas amadureçam?

Regina Pereira
Fernanda, eu não acredito nisso não. Esta é uma questão para a qual o tempo não é o melhor remédio não. É até estranho falar da função de revisão no momento em que ela parece mais fadada à extinção, num momento em que mais se escreve e cada vez se escreve assustadoramente mal. Antes você tinha, pelo menos da parte da imprensa, das editoras, das agências de publicidade, uma preocupação com o erro. Hoje, pra cortar custos e com a velocidade com que a notícia é propagada, não há tempo para que se corra atrás do erro com tanto afinco.
O boom da revisão, que foi nas décadas de 80 e 90 do século passado, ele coincide com o boom das editoras de revistas, dos grandes jornais. E, em decorrência da expansão do mercado de jornais e revistas, surgiram as agências de publicidade, onde, aí, sim, o revisor foi durante muito tempo muito bem pago.

Acelera Texto
Por que alguém tem a ideia de se tornar um revisor profissional?

Regina Pereira
Eu fico me perguntando se esta pergunta cabe ainda hoje em dia. Porque, como acabei de falar, parece ser uma função praticamente em extinção. Antes, muita gente entrava na revisão do Estadão e da Folha, por exemplo, achando que era um atalho pra ir pra redação. Alguns, poucos, conseguiram. E tem um fato muito cruel nisso: depois que você se torna revisor, adquire um carimbo na testa, difícil de ser tirado. O carimbo sempre falou muito mais alto. Me refiro ao Estadão e à Folha porque foram durante muito tempo veículos que empregavam muita gente. Vou te dar um exemplo: quando eu trabalhava na Abril como revisora eu ganhei um prêmio, em 2007, por ter escrito uma matéria para a National Geographic, Sertão Literário. (PDF da matéria abaixo desta transcrição).
Ganhei um Prêmio Abril, superdisputado, concorrido, com matérias da Bravo e vários outros veículos grandes, e foi um espanto geral: “Como assim? O revisor também escreve?”

Acelera Texto
O revisor também escreve. Eu entendo bem essa história do carimbo. Ontem mesmo ao contar para uma amiga que agora o Acelera Texto está focando no Podcast, ela disse: “Nossa, mas você não é uma mulher do texto”. Ao que eu respondi: mas o áudio é uma escrita falada. Acho que temos muitas habilidades, né? Você Regina é revisora, mas também é escritora, é estudiosa da obra do Guimarães Rosa. Aliás, vou dar a dica, se você entrar no aceleratexto.com.br e escrever no motorzinho de busca “Guimarães Rosa”, irá encontrar conteúdos muito legais da nossa entrevistada Regina Pereira. Mas vamos seguir.

Regina Pereira
Nesses espaços de revisão a que me referia, os grandes jornais, por exemplo, os mais novos conviviam com os revisores à moda antiga, aqueles que não raro acumulavam dois empregos, eram quase funcionários públicos, só sairiam dali aposentados. Esses nunca tiveram a ambição de ir pra uma redação, de escrever. Eram mais técnicos, conheciam muito de gramática, até por causa da formação escolar deles, muitos tinham aprendido latim na escola. A maioria não tinha curso superior. E era com eles que os mais novos aprendiam.

Acelera Texto
Verdade. Eu fui revisora, isso no século passado obviamente, na Folha de S. Paulo, por um breve período, e eu lembro que havia um colega que era escrivão de polícia…

Regina Pereira
Nossa, eu não sabia desse seu lado revisora…
Retomando, essa leva que chegou depois, curiosamente veio das faculdades de jornalismo, e não de letras, mas essa leva já tinha outro perfil. A maioria achava que estava lá passando uma chuva. Mas vou bater nesta pergunta: o que seria do revisor se todos escrevessem bem e corretamente?

Acelera Texto
O que é passando uma chuva?

Regina Pereira
Passando uma chuva é dando um tempo. Dando um tempo na revisão enquanto não se tornava o fodão do jornalismo.

Acelera Texto
Essa história o que seria do revisor se todos escrevessem corretamente me lembra aquela história: o que seria do dentista de todos escovassem corretamente os dentes e não comessem doces…

Regina Pereira
Mas escovar os dentes é bem mais fácil de aprender.
É um ofício bem esquisito. Ele já nasce de uma falha e nela opera. Na falha de quem escreve. O revisor funciona como um primeiro leitor. E, se este primeiro leitor vê ou ouve algum ruído, é preciso parar para repensar a frase, a informação. O problema é que aí você lida com a vaidade de quem escreveu. Alguns repensam numa boa. Outros ignoram com argumentos do tipo: “Eu gosto assim” (por mais absurdo que seja o que ele escreveu). E outros vão mais além: “Ah, mas foi isso o que eu quis dizer”, e explica o que quis dizer. Eu sempre rebato: “Ah, mas infelizmente não vai uma gravação no pé da página explicando o que você quis dizer, né?”. Eu disse que é o primeiro leitor que vê e ouve porque às vezes a gente também revisa de ouvido. Tem a coisa da sonoridade das palavras. Você percebe uma repetição que você lembra lá atrás. É uma música. Às vezes revisar é ler uma partitura. A gente lê com o ouvido. Com olhos e ouvidos.
Tem um outro lado também que é bom a gente falar, que existem vários tipos de revisor, e tem um que eu convivi muito que chega a ser cômico, que é o revisor ressentido, aquele que vive resmungando contra o texto alheio, dizendo que escreveria melhor. Eu sempre digo: “Então senta lá e escreve”. E tem o revisor picuinha, o que adora criticar a leitura do colega que leu antes, tipo assim: se a pessoa colocou um “de” ele tira, se a pessoa não colocou
o “de”, ele põe.
Porque revisar é uma técnica, um jeito diferente de olhar o texto. Por exemplo, quando eu estou do outro lado do balcão, escrevendo, fico atenta para não cometer erros. Mas, se eu der meu texto pra um revisor, um bom revisor, ainda assim ele é capaz de apontar falhas, repetições, incongruências, às vezes até uma concordância que escapou. O erro é insidioso.

Acelera Texto
Isso que você está falando é uma realidade, um fato. Eu, por exemplo, já errei num título de capa de revista. Veja só: errar no título. Semana passada errei num título de uma postagem. Creio que por errarmos tanto é fundamental insistir na revisão. Se for verdade que não existe erro zero, também não precisamos ter 1000 erros.

Regina Pereira
Sim, eu gosto muito da comparação com a função do goleiro, uma das mais clássicas e pertinentes. Você pega
99, 9% dos erros, mas um pastelzinho que seja que sai, você vira o pior profissional sobre a face da Terra.

Acelera Texto
Explica aí pra gente o que é pastelzinho?

Regina Pereira
Pastelzinho é uma letra trocada, uma letra embaralhada. Vou citar um exemplo bem clássico que ficou na minha história. Não na minha história, mas de onde eu trabalhei. Uma vez na Veja São Paulo, numa ficha de serviço de um conceituado restaurante, saiu a palavra pedido sem o primeiro d. (Peido!!!) Aí não tem como o revisor não ser condenado à forca, né? Não tem jeito
E do ponto de vista psicológico é uma profissão insalubre, mesmo nas modernas redações. Ela é insalubre porque você vive sempre na pressão dos prazos curtos, seja num fechamento de uma revista, na feitura de um livro. Tudo é pra ontem. Como é a última fase do processo, todo mundo se acha no direito de roubar seu tempo. Então é preciso dar conta da qualidade geralmente num tempo muito exíguo. E existe a obrigação do erro zero, e com o agravante dos fechamentos noturnos. Na imprensa em geral eles eram um hobby, uma cultura. Na Abril, por exemplo, era muito comum os fechamentos que se arrastavam madrugada inteira, os jornalistas se achavam fodões de ter raiado o dia na Marginal. Na Abril tinha uma coisa bem curiosa: no tempo das vacas bem gordas, existia um departamento chamado Leitura Crítica. O que era este departamento: as revistas, depois de prontas, passavam por uma “rerevisão”. Ali eram elencados os erros mais comuns, e qual era o nível de erro. Teve edições da Exame, onde eu trabalhei, que a gente conseguiu chegar ao erro zero. Mas muito raramente. Porque o ideal pra conseguir o erro zero é você fazer três provas, três leituras, três olhares diferentes. Imagina se isso atualmente acontece. Claro que não acontece.

Acelera Texto
Inclusive hoje a gente ouve gente que está querendo contratar o serviço e pagar pouco. Fale disso.

Regina Pereira
O mais clássico que eu ouço é assim: a pessoa me manda um relatório de 300 laudas e fala assim: “Não, é só pra dar uma olhadinha pra ver se não escapou nada”. Como se você não tivesse que ler todas essas 300 páginas. Como se eu tivesse um olho mecânico que detectasse o erro sem ler. Mas tem coisa muito pior. Uma vez recebi uma proposta de receber por erro encontrado. Era uma editora de uma revista, ela queria pagar por erro encontrado. Que métrica eu poderia usar neste caso?

Acelera Texto
Quer dizer, você teria que ler atenciosamente 500 páginas e se encontrasse apenas 10 erros, em tese, receberia só por esses 10? Sabe o que eu acho, Regina. Essa é a turma dos sem-noção. Uma turma que tem crescido de forma exponencial, a cada dia.

Regina Pereira
Os caras querem espremer a gente de todos os lados. Não é que não saibam da importância do trabalho, eles querem burlar, querem dar o jeitinho deles para não pagar.
Em contrapartida, na publicidade, você tem um perfil diferente. Normalmente há pouco texto. Mas então é bem pago por quê? Já foi mais bem pago, mas ainda é razoavelmente bem pago. No tempo dos outdoors, por exemplo, você escrevia uma frase, mas que seria impressa em letras garrafais, que ia ficar ali por um bom tempo.

Acelera Texto
O erro também seria garrafal.

Regina Pereira
Então a responsabilidade, no caso deste revisor, era muito grande. Afora as campanhas de rádio e tv. Então se justifica esse pagar bem. É muita responsabilidade, muita grana e muita pressão dos anunciantes.
O contraponto é o mercado editorial, de livros. Diferentemente, é muito texto pra pouca grana. E, pior, são livros que ficarão pra eternidade. Que pretendem ficar. Depende da qualidade do texto.
Mas já houve épocas melhores. Eu fazia revisão como freelance para a Cosac Naify, e uma vez, eu estava de férias, o editor me pediu uma coisa bem curiosa: que era para eu ler uma edição do Anna Kariênina só pra encontrar erros de leitura do scanner. Era uma leitura prazerosa. E não é que ainda assim achei erros de revisão, de concordância, numa edição que já estava consolidada. Poucos, mas estavam lá, impressos.
Se você voltar um pouco para trás, a função já chegou a ser uma função bem paga, sobretudo em agências de publicidade, mas hoje o que vemos por exemplo nesta área da publicidade é a pejotização, a terceirização, a subordinação a revisários, criatórios de revisores, geralmente uma empresa que presta serviço para as agências e fornece os profissionais e ganha em cima do trabalho deles.
A ideia de uma empresa de revisão é estranha. Alguém vai ganhar uma porcentagem em cima do seu trabalho. É uma coisa que eu sempre questionei: a ideia de uma empresa de revisão. Como você vai checar a qualidade daquelas 500 páginas que o cara acabou de ler? A qualidade do trabalho? Reler tudo? Se você é um bom profissional não se submete a este formato. Você tem seu nome no mercado e no boca a boca você vai sendo indicado. Você vai fazendo o seu trabalho.
Outro ponto que eu gosto de colocar é que revisor não pode ser um cara muito normal. Exerce uma função de bastidor, condenado a uma invisibilidade, porque, embora importante, sempre foi considerada uma função menor.

Acelera Texto
Isso me lembra a figura de produtor de vídeo, que sempre faz essa reclamação. Se tudo sai bem, como na situação do revisor, se tudo sai bem, ninguém lembra que teve um revisor, mas se houver um erro, todo mundo vai dizer: “Cadê o revisor?” Ou, “que péssimo revisor”.

Regina Pereira
Você está sempre invisível, mas sempre pronto para vir à tona no erro. Uma vez li um texto que se refere à época do linotipo, uma imagem a princípio datada, mas que serve pra representar o lugar da função. O texto dizia que o revisor ocupava um mezanino que era um purgatório entre a redação (que ficava no primeiro andar) e a oficina (no térreo). Purgatório é uma palavra que bem define. Embora às vezes, na maioria das vezes, acho que inferno cabe bem mais.

Fernanda Pompeu
Linotipo – pra quem não sabe ou não se lembra: sistema de composição tipográfica criado no final do século 19. Usava um teclado e caldeiras de chumbo. Quem operava o teclado era o linotipista. Confere, Regina?

Regina Pereira
Confere. E, na verdade, pelo que eu entendo, a revisão foi criada um pouco em cima da necessidade deste tipo de impressão. O que acontecia com este tipo de impressão: no princípio o cara montava manualmente, linha por linha. Depois veio uma máquina. Os erros mais comuns neste tipo de composição eram linhas de ponta-cabeça. Tinha muito salto, porque o linotipista pegava o original e ia compondo, às vezes ele comia linhas. A revisão era feita acompanhada. Para checar e evitar esse tipo de erro surge a figura do revisor.
Originalmente, no século passado, revisão era mesmo um bico. Como a maioria dos jornais, que era o mercado de trabalho, fechava à noite, muita gente, que estudava ou tinha outro emprego de dia, normalmente de funcionário público, trabalhava como revisor para complementar a renda. Mesmo porque quem tinha um certo grau de instrução dava conta de ser revisor. A gramática e o latim eram ensinados a ferro e a fogo nas escolas. Nesta época mais remota a necessidade parecia ser mesmo ser por causa do tipo de composição, o linotipo.
Era tão insalubre que os linotipistas trabalhavam bebendo leite. Um antídoto contra as inalações do chumbo. Imagina o cheiro horrível. Dizem que as provas chegavam pro revisor ainda cheirando esse caldo de chumbo estanho e antimônio.
Já avançando pra meados do século 20, quando a indústria cultural no Brasil era ainda incipiente, tínhamos um mercado que se restringia aos jornais, o mercado de livros era pequeno. Mas tinha um contraponto interessante, nas editoras, na José Olympio, por exemplo, trabalhavam Aurélio Buarque de Holanda e Graciliano Ramos. A história de Graciliano com a revisão é bem curiosa.

Acelera Texto
Nossa, conta pra gente. Graciliano Ramos, o autor de Memórias do Cárcere, Vidas Secas, São Bernardo, Infância, Angústia.

Regina Pereira
Graciliano sai de Alagoas, isso em 1914, pra começar a vida profissional no Rio, e vai trabalhar como revisor em três jornais. Na verdade, era pior que isso. Ele dizia que era foca e suplente de revisão, o que significava que ele só ganhava se trabalhasse. Se faltava alguém, pra preencher um buraco. Nas cartas que ele manda pro pai, ele sempre reclama disso, que ganha pouco. Mas que ele prefere ficar na banca de revisão do que num balcão. Essa era a opção dele. Como não dá muito certo, ele resolve voltar pra terra dele, até por questões familiares. Ele volta para Palmeira dos Índios, Alagoas, onde ele chega a ser prefeito. Esta época de prefeito também é muito curiosa porque ele escrevia relatórios burocráticos com uma precisão incrível.
Ele dizia que nesta época de revisor ele levava uma vida mais ou menos estúpida. Ele falava que nesta época ele trabalhava em três lugares e a língua não era unificada. Então em um lugar ele tinha de escrever Brasil com z em outro com s. Ele falava uma coisa, ele era pretensioso, que ele dominava os três critérios, e que ele dominava uma língua que era a língua dele mesmo, que era a língua que ele queria implantar. Dizem que ele teve um papel nestes lugares em que ele trabalhou. Ele não ficava só catando pastel. Ele batalhava para que a linguagem jornalística fosse mais leve, mais fluida. Ele brigava, dizem que ele era muito teatral. Quando apareciam termos jurídicos nos textos jornalísticos ele falava palavrões, era uma figura muito engraçada. Quando ele começou, ele escrevia versos, ele dizia que era mártir dos revisores e dos tipógrafos porque eles trocavam as palavras dos poemas. Botavam as palavras que eles bem entendiam. Até por isso ele começou a ir neste caminho.
Por exemplo, quando ele voltou pro Rio, depois de ser preso, em 1936 ele foi preso, em 1940 ele volta pro Rio. Mas ele vai voltar pro Correio da Manhã, não mais como foca, ele vai substituir Aurélio Buarque de Holanda como copidesque. (O Aurélio do dicionário, do Aurelião).
Era curioso que ele chamava a banca de revisão onde ele trabalhava de banca de remendão.
Os relatos que você ouve das pessoas, o Paulo Mendes dizia que ele (Graciliano) se dedicava a essa função comezinha, menor, com uma paciência, com uma persistência, com uma teimosia.
Quando ele começou a escrever os livros, ele não confiava nos revisores da José Olympio. Ele mesmo revisava os livros dele. E o processo era assim: ele tinha um manuscrito, depois era datilografado, e depois ia ser impresso. Ele punha até a filha de 9 anos em casa pra ajudar a revisar os livros dele.

Acelera Texto
Agora que você falou isso, eu pensei que também isso era um problema que talvez tenha ajudado na própria desvalorização da função de revisão, que é essa do Paulo, você disse que o Paulo Mendes fala que é uma função menor, comezinha. É uma redução da função, da qual eu discordo. Eu sinto muito isso com a crônica. Eu vejo muita gente enaltecer o romance, o romance é uma sinfonia, não estou dizendo que não seja, o conto… Aí quando chega na crônica, aí falam:
“Ah, a crônica é algo que se faz quando você está cozinhando”. O que, aliás, deveria ser uma valorização, porque quando a gente está ali cozinhando é um momento de grande verdade. Foi só um parêntesis pra chamar a atenção pra um preconceito em relação ao revisor.

Regina Pereira
Eu concordo, e com relação à crônica quem disse isso nunca leu um Rubem Braga. Mas você tem de um lado esta observação do Paulo Mendes Campos, que foi uma coisa que eu li e achei estranha. Por outro você tem um cara como o Graciliano que é incansável.
Tem mais uma história curiosa dele, um dos livros mais fodões dele, mais densos, que é Angústia, ele entregou os manuscritos para uma datilógrafa no dia que ele foi preso. E o livro não passou pelo processo de revisão dele. E ele só recebeu o livro impresso. E diz que era um desastre.
Se alguém tiver curiosidade, no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), que fica no prédio da Brasiliana, na USP, você consegue ver esse processo, esse caminho que ele fez nos originais. Você vê que Infância tinha um nome mais comprido que ele foi cortando até ficar só Infância. De como era esse processo dele de enxugar o texto. E Angústia tem um personagem que acumula vários empregos, inclusive de redator e revisor. E é um cara que quer escrever. É curioso este espelhamento que ele faz.

Acelera Texto
Já que a gente está nesta seara dos escritores revisores, tem o caso do Saramago, que também foi revisor. Tem um livro que tem um personagem que é revisor.

Regina Pereira
Sim, História do cerco de Lisboa. Neste livro tem o personagem, o Raimundo Silva, um revisor experiente, numa grande editora. Ele está revisando um texto de História, que é a História do cerco de Lisboa, de um historiador, e os editores começam a pressionar ele por causa do prazo, que ele tem de entregar aquilo pra ontem, ele fica muito puto da vida e resolve fazer uma sacanagem. Ele resolve colocar um “não” na história. Ele coloca que os cruzados não ajudaram os portugueses no cerco de Lisboa. Ele comete o erro, entrega e fica como se estivesse numa trincheira esperando o que vai acontecer. O livro é impresso, alguém lê, percebe o erro e chamam ele. Como ele tinha uma folha de bons serviços prestados ele não é demitido. Aí o romance toma um rumo engraçado porque eles chamam uma mulher pra ser fiscal dos revisores. Ela vai ler o que os revisores leram pra ver se ninguém fez uma gracinha dessas. E é muito legal porque eles acabam se apaixonando. E ele também é um recalcado. Ele também queria escrever. Ela então resolve incentivar ele a escrever a versão dele da História do cerco de Lisboa. Ele escreve e você tem um livro dentro do livro. Pra quem se interessa pelo assunto é um grande livro.

Acelera Texto
Para terminar essa nossa conversa, vou perguntar para a Regina Pereira, quais erros mais comuns encontrados pelos revisores:

Regina Pereira
O primeiro erro que eu acho terrível é a pontuação. As pessoas normalmente não sabem pontuar. Elas dizem que pontuam de ouvido. Você não pode pontuar de ouvido. Existem regras gramaticais, por exemplo, pra não separar sujeito do verbo. Vou até abrir um parêntesis: num texto literário, eu que sou apaixonada por Guimarães Rosa, Guimarães Rosa pontua do jeito que ele bem entende. Mas não é muito bem como ele bem entende. Você vai olhando, olhando, e você entende por que aconteceu isso. Ele está atrás de um efeito. Há uma consciência. Ele criou uma língua e ele tem o direito de fazer o que ele bem entender. Mas num texto jornalístico, numa postagem não cabe isso. Você tem de saber as regras mínimas. A pontuação é a primeira porque ela mexe com toda a estrutura do texto.
Tem também a crase. Ninguém sabe onde colocar a crase. Crase é uma batata quente que as pessoas querem se livrar dela logo. A pessoa põe ou não põe e aí fica aquela situação engraçada.

Acelera Texto
Aproveitando o ganho, aqui na Rádio Madalena tem um Acelera Texto sobre crase. É só ir lá no site e procurar Crase.

Regina Pereira
Eu tiro o chapéu pra Fernanda, de ter a consciência dessa necessidade de saber empregar seja a crase… E ela está no meio digital, que era pra dizer: “Ah, não, não preciso disso”.
Tem várias questões, a gente podia ficar o dia inteiro falando. Tem por exemplo o que muda o sentido: tem “ao encontro de” e “de encontro a”. As pessoas pegam e jogam ali. Quando aparece “ao encontro de” e “de encontro a” o revisor tem de parar pra entender o que se está querendo dizer, porque muda o sentido.

Acelera Texto
Um é choque e o outro é acolhimento.

Regina Pereira
Uma coisa que dói no ouvido, e na TV e no rádio aparece muito, por exemplo, é o despercebido e desapercebido. Não sei por que essa praga, mas normalmente as pessoas usam o desapercebido no lugar de despercebido. E nunca acertam. É uma coisa que acho que jogam lá.
Outra coisa, por exemplo: trezentas gramas. A concordância com gramas.

Acelera Texto
Gramas é uma palavra masculina quando se referir a medição. Então são trezentos gramas. Duzentos gramas.

Regina Pereira
Outra coisa: é comum você ver 1,5 bilhões. Não chega dois. Então é 1,5 bilhão.
Meio dia e meia. Meia noite e meia é o correto. (Meio dia mais meia hora.)
Tem o “ao invés de”, “em vez de”. “Ao invés de” é quando é um antônimo. “Em vez de” é o que se usa mais. Mas o que tacam lá de “ao invés de”…
Tem uma coisa que quase ninguém respeita. Não é que não respeita, acho que as pessoas nem têm ideia de que existe e é quase uma operação matemática no texto, que é a regência. Tanto a nominal quanto a verbal. É um assunto que gera discussão, existem dicionários de regência, e concordo que eles estão desatualizados. Algumas regências tiveram de se modernizar até pelo uso intensivo. Assistir, por exemplo. Você não precisa mais dizer assisti ao filme. Porque antes assistir direto era assistir o doente.
Tem essa questão de como a língua andou e os gramáticos, alguns, não acompanham. E às vezes o revisor fica muito aferrado àquelas regrinhas. Esse revisor a que me referi no começo, o revisor ressentido, o revisor pentelho. Tem uma coisa que me incomoda muito quando estou revisando que são as frases com dupla regência. Eu vou dar um exemplo de uma frase que eu já falei. “Revisão é uma função que nasce e opera em uma falha”. Aí você tem dois verbos com regências distintas, nascer e operar. Aí você tem de dizer: “Revisão é uma função que nasce de uma falha e nela opera”.
E que fica mais elegante.
Quando estou revisando eu destrincho a frase e coloco as duas regências corretas. Pra isso tem dicionários de regências que a pessoa pode consultar. Mas quem vai se importar com o dicionário de regência nestas alturas.

Acelera Texto
Aí vai da consciência de cada um. O Acelera trabalha muito com esse foco, com essa ideia. Se você quer melhorar suas postagens nas mídias sociais, está querendo dar aquele plá, está falando de algo que você verdadeiramente acredita, por isso que você está lá, trabalhando com a comunicação, você tem de cuidar do seu texto, que nem cuidar do jardim da sua casa, cuidar do texto.
Uma última questão:
Os corretores, esses que vêm no celular, no computador, podem substituir o revisor?

Regina Pereira
Eu não posso cravar hoje que não podem substituir.
Num futuro muito lá na frente, porque eu imagino que os criadores de software ficam trabalhando neste sentido. Porque, como toda ferramenta, o corretor é um auxiliar.
Você tem de saber usar. Você não pode embarcar na primeira sugestão. Acreditar nele. Ele é muito bom pro pastel. Porque o que acontece quando a gente está lendo, o olho mecânico, a gente às vezes não lê a palavra inteira. O corretor é muito bom neste sentido. Mas você tem por exemplo a coisa do contexto. Vou dar um exemplo bem fácil.

Acelera Texto
É difícil ele pegar uma regência por exemplo. Ele teria de ter uma sofisticação muito grande.

Regina Pereira
Ele não está aparelhado para isso. Com esta questão do contexto você tem, por exemplo, palavras muito parecidas. Vou dar um exemplo bem fácil: prefeito e perfeito. Ele não vai te dizer porque ele não sabe ali se a palavra certa é prefeito ou perfeito.

Acelera Texto
Ou forca e força. De repente você quer dar uma força pra pessoa e põe lá: “Mauro, uma forca”. O cara vai ler e pensa: “Pô, meu”.

Regina Pereira
Hoje no estágio em que está você tem de usar ele como auxiliar. Você tem de vigiá-lo. E ele nunca, nunca diga nunca. Dificilmente ele chegará a um nível de sofisticação de melhorar um estilo. Porque às vezes você pega um texto que você precisa melhorar o estilo. Melhorar a frase. Deixar a frase mais bonitinha, mais perfumada.
Neste momento pra quem está querendo usar essa ferramenta não tenha ilusões. Assim como com o tradutor. O tradutor é um desastre. Neste momento, o olho humano, a compreensão humana, nada vai substituir. Pra terminar toda essa conversa da gente, lembro de um verso do Drummond, me corrija se não for isso que ele fala:
Lutar com as palavras é a luta mais vã. Entretanto lutamos mal rompe a manhã.

Acelera Texto
Lutar com as palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã.

Regina Pereira
Essa é a nossa função.

Acelera Texto
Só uma curiosidade: num dicionário maravilhoso, dicionário de português, lá da terrinha, da Academia de Ciências de Lisboa, porque lá é Academia de Ciências, a epígrafe, que é aquele verso que você escolhe para abrir, uma das epígrafes é esta de Carlos Drummond de Andrade, Lutar com as palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. Eles usam o Drummond e um poeta angolano. Acho que fizeram isso pensando na ideia de uma língua que se expandiu.

Regina Pereira
E que tem a pretensão de se unificar. Que é uma pretensão que eu não gosto. Acho que cada um tem de ter a sua cor local. E sua sintaxe própria.

Acelera Texto
Esse foi o Acelera Texto Conversa aqui na Rádio Madalena. Conversamos com a Regina Pereira jornalista a revisora.
Um bom papo para aqueles e aquelas quem amam escrever. Para aqueles e aquelas que amam a língua portuguesa.
Grande abraço.

 

Leia:

Sertão Literário 

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Ouça o Acelera Texto Conversa na Rádio Madalena

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