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O grande vídeo da Crase sem Crise mostra que crasear é fácil. 

Veja o Grande Vídeo da Crase sem Crise:

 

A seguinte frase é atribuída por alguns ao poeta Ferreira Gullar (1930-2016): “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. Pura verdade, apesar de muitos a temerem. Se pensarmos um pouco, podemos viver a crase sem crise.

A crase foi inventada para tornar mais clara a comunicação escrita, economizando a necessidade de grafarmos a + a. Fui a a loja. Pois isso seria uma chatice tremenda.

Então, viva a crase! Abaixo, bolei uma exposição didática para mostrar que é possível viver a crase sem crise – uma experiência de pensar a lógica da língua e treinar pelo resto da vida.

Definição básica:

Crase é a fusão de duas vogais idênticas: a + a.
Quais vogais idênticas? Preposição a e artigo definido a.

O acento grave (`) é o sinal que indica a crase: à.
O fenômeno da crase ocorrerá sempre que o verbo exigir a preposição a
e esta se encontrar com o artigo definido a.

Repare nos exemplos:

Minha amada cheira a rosa.
A amada aspira o perfume da flor. Ocorre apenas a (artigo definido).
Minha amada cheira à rosa.
O cheiro do corpo da amada lembra o cheiro da flor. Ocorrem a (preposição) + a (artigo definido). Portanto: a + a = à.

Meu amado pintou a mão.
O amado pintou a própria mão (apenas artigo a).
Meu amado pintou à mão.
O amado pintou (um quadro ou um desenho) usando pincel, lápis, guache etc. (fusão da preposição a com o artigo a = à).

Exemplos de crase obrigatória:

Fui à escola. a (preposição) + a (artigo definido) = à.
Recorri à internet. a (preposição) + a (artigo definido) = à.
Assisti à peça. a (preposição) + a (artigo definido) = à.
Fez referência à aluna. a (preposição) + a (artigo definido) = à.
O avião chegou à meia-noite. a (preposição) + a (artigo definido) = à.

Prova dos nove da crase:

Troque a palavra feminina por uma masculina.
Se a masculina tiver na frente a (preposição) + o (artigo definido) = ao.
Ao corresponde a à (a+a):
Fui ao colégio / Fui à escola.
Recorri ao livro / Recorri à internet.
Assisti ao filme / Assisti à peça.
Fez referência ao aluno / Fez referência à aluna.
O avião chegou ao meio-dia / O avião chegou à meia-noite.

Mas cuidado: às vezes, existe apenas a preposição a na frente da palavra feminina no plural, dando sentido de indeterminação. Lembre-se: um a sozinho não forma crase:
Não me refiro a escolas, e sim a universidades.
Vou a festas todo final de semana.
Chego a cidades inventadas.
Dirijo-me a seções fantasmas.
Nos exemplos acima, só existe a preposição a.

Para ocorrer a crase, as frases acima teriam que apresentar sentido de determinação, e seriam escritas assim:
Não me refiro às escolas, e sim às universidades.
Vou às festas todo final de semana.
Chego às cidades inventadas.
Dirijo-me às seções fantasmas.
Nesses casos, temos a (preposição) + as (artigo definido) = às.

Seguindo a lógica, sempre escreveremos:
Quero ir àquele jogo (a preposição + a de aquele).
Refiro-me àquela aluna (a preposição + a de aquela).
Prefiro isto àquilo (a preposição + a de aquilo).

Crase em expressões que subentendem à moda de, à maneira de:
Alguns exemplos:
talharim à bolonhesa (à moda).
bife à cavalo (à moda).
a ministra saiu à francesa (à maneira).
o jantar foi à americana (à maneira).
ela escreve à Machado de Assis (à maneira).
Neymar faz gols à Marta (a maneira).
um blog à Acelera Texto (à maneira).

Nunca usamos crase com palavras repetidas:
Alguns exemplos:

cara a cara.
boca a boca.
frente a frente.
ponta a ponta.
gota a gota.
rede a rede.
Justificativa: não há artigo definido a. Tão só ocorre a preposição a.

Sempre usamos crase no início de locuções com palavra feminina.
Alguns exemplos:

à direita
à esquerda
à disposição
à exceção (de)
à mão
à margem (de)
à medida (de)
à prestação
à primeira vista
à venda
à vontade.
Justificativa: preposição a + artigo definido a = à.

Nunca usamos crase no início de locuções com palavra masculina.
Alguns exemplos:

a álcool
a cargo (de)
a curto prazo
a gosto
a
a ponto de
a rigor
a sério
a serviço
Justificativa: não se usa artigo definido feminino (a) antes de palavra masculina.

Nunca usamos crase antes de verbo:
Alguns exemplos:

as aulas começam a partir de amanhã.
a jornalista começou a entrevistar.
todos estavam dispostos a colaborar.
pôs a imaginação a voar.
Justificativa: é impossível ocorrer artigo definido antes de verbo.
Se o fizermos, o verbo vira substantivo (sempre no masculino): o amar, o fazer, o criar.

Crase com horas:

Márcia trabalha das 8h às 17h (com crase).
Chegarei às 20h (com crase).
Mas atenção:
Estarei online entre as 6h e as 10h (sem crase).
Antecipei meu voo para as 19h (sem crase).

Dica dourada: substitua qualquer hora por meio-dia.
1 Se encaixar ao tem crase:
Márcia trabalha das 8h ao meio-dia, portanto das 8h às 19h.
2 Se encaixar o meio-dia não tem crase:
Antecipei meu voo para o meio-dia, portanto para as 19h.

Teste seu saber:

Fui à Brasília ou Fui a Brasília?
Vou à Paris ou Vou a Paris?
Refiro-me à Rússia ou Refiro-me a Rússia?
Dirigiu-se à Califórnia ou Dirigiu-se a Califórnia?

Quem respondeu:

Fui a Brasília.
Vou a Paris.
Refiro-me à Rússia.
Dirigiu-se à Califórnia.
acertou em cheio!

Vamos destrinchar:

Para ter crase, necessitamos de a + a.
Brasília e Paris não são antecedidas de artigo definido.
Escrevemos: Brasília é pura arquitetura. Paris é uma festa.
Por outro lado, Rússia e Califórnia são antecedidas pelo artigo definido.
Escrevemos: A Rússia tem uma literatura maravilhosa. A Califórnia produz vinhos famosos.

Portanto
Sem crase

Vim de Paris / Vim de Brasília – daí usamos Vou a Paris / Viajei a Brasília
Com crase
Vim da Rússia / Vim da Califórnia – daí usamos Vou à Rússia / Viajei à Califórnia

Porém, atenção!
Se a localidade for adjetivada, o uso da crase é obrigatório:

Fui a São Paulo (vim de São Paulo – sem crase).
Fui à São Paulo da garoa (subentendido: à cidade da garoa, com crase).
Vou a Roma (vim de Roma – sem crase).
Vou à Roma cidade aberta (subentendido: à cidade aberta, com crase).

Aliás, cuidado com os substantivos femininos subentendidos:
Esta obra é semelhante à de Picasso (subentendido: a obra).
Chegaram à Patriarca no fim da tarde (subentendido: a  praça).
Dirigiu-se à Rebouças e ficou parado (subentendido: a avenida).
Fomos à Globo fazer reclamações (subentendido:a  emissora).

Presta atenção:
Distância

Ensino a distância (indeterminado, sem crase).
Ensino de português à distância (determinado, com crase).
Sou míope, não vejo bem a distância (indeterminado, sem crase).
O carro deve estar à distância de 2 metros da bicicleta (determinado, com crase).

Casa

Depois de dois anos voltou a casa (indeterminado, sem crase).
Depois de dois anos voltou à casa da mãe (determinado, com crase).

ALGUNS CASOS DE CRASE OPCIONAL

1
Antes de pronomes possessivos femininos singulares (minha, tua, sua, nossa, vossa)
Fez elogios a sua roupa ou Fez elogios à sua roupa.
Ele voltou a nossa cidade natal ou Ele voltou à nossa cidade natal.
Fui a tua escola ou Fui à tua escola.
Corri a minha rua ou Corri à minha rua.

Porém, no plural a crase é obrigatória:

• Fez alusões às suas chantagens.
• Referiu-se às minhas idéias.
• Vieram às nossas casas.

2
Antes de nome próprio feminino:

Fizeram uma homenagem a Cláudia ou Fizeram uma homenagem à Cláudia.

3
Depois de até:

• Fui até a escola ou Fui até à escola.
Nesse caso, os gramáticos polemizam. Uns dizem que “até” dispensa preposição, pois no masculino corresponderia: fui até o instituto.
Outros dizem que até pede preposição. No masculino corresponderia: fui até ao instituto. Enquanto eles não chegam a um acordo, a crase depois de “até” permanece facultativa.

Terminou?

Quase. O capítulo crase é extenso.
MAS, neste post, vimos 98% dos casos.
É um bom começo para viver a crase sem crise – uma experiência.

Fontes de consulta
Decifrando a Crase, de Celso Pedro Luft.
O Português do Dia a Dia, de Sérgio Noronha.
Manual de Redação Profissional, de José Maria da Costa.
Manual de Redação e Estilo pra Mídias Convergentes, de Dad Squarisi.

Quer acrescentar outro caso de crase. Fique à vontade para comentar.

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