Escrita de observação


história da mala

esquina da Cayowaá com Havaí
esquina da Cayowaá com Havaí
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Por que não?

Da mesma forma que existe o desenho de observação, há a escrita de observação. Mas nada disso foi planejado.
Era um domingo no bairro do Sumaré, Sampa. Eu passeando com a Jussara, minha sobrinha de quatro patas. Muito cedo ainda, a padoca Estrela do Sumaré estava abrindo as portas. Nem viva alma se via. Quer dizer, havia a mala abandonada, bem na esquina da Cayowaá com a Havaí. Mala é um objeto símbolo. Lembra mudança, lembra viagem. Uma mala abandonada é prato cheio para a imaginação. Puxei o celular, fotografei.

No Facebook

Postei a imagem da mala com a pergunta: Qual a história?

Quando eu era uma jovem escriba, fiz vários exercícios de escrita automática (deixo créditos para minha amiga, já falecida, Fabíola Camargo) a partir de estímulos visuais. Jarros, postes, banco de rodoviária, escada rolante de aeroporto, semáforos, latas de lixo, copos, garrafas, cinzeiros abarrotados serviram de ponto de partida para textos. Mas não só, reproduções de quadros do Van Gogh, Almeida Prado, Tarsila, Magritte foram excelentes pontos de partida para preencher a página em branco.

Mais tarde ao me tornar professora de roteiro e de redação, sempre, na primeira aula, recorri à técnica de escrever a partir de um estímulo (visual, verbal, tátil, sonoro).  Pedia que os alunos o fizessem. No princípio havia relutância, no final todos adoravam.

Propunha isso por acreditar ser possível escrever a partir de qualquer coisa. E mais: ao usar essa técnica deixamos, momentaneamente, o terrível juiz que habita em cada um de nós. Portanto, a escrita automática é excelente exercício de aquecimento para desinibir a escrita e o escriba.

Mas quando postei a foto da mala, não sabia se as pessoas responderiam. Os profissionais do marketing digital gostam de afirmar que o Facebook é como “estar na beira da piscina de um clube”, ou seja, poucos estão a fim de trabalhar.

O resultado surpreendeu: mais de 50 comentários. 50 destinos para aquela mala. Então fiz a mesma pergunta para todos: Estou pensando eu pôr sua história num post do blog Acelera Texto. Tudo bem? Basta sim ou não. Abraço. Trinta e uma pessoas disseram sim. Para a minha alegria.

Leia as histórias

Ana Paula Rovina
A mala que rodou mais que o dono, ela viajou pelo Brasil e pelo mundo, emprestada para os amigos que transitavam por aí.

Aurea Alves
Ele havia decidido que daquele dia não passava. Olhou o relógio e desfez-se das ferramentas que usava em sua rotina de trabalho. Decidiu realizar um sonho: apresentou-se ao dono do circo e disse: vou com vocês. Feitas as contas, seu tempo agora era divido entre chão da estrada e o quase céu da lona, embalado pelo trapézio. Se estava feliz não sabia, mas agora estava no céu.

Beatriz Caldana Gordon
Cansou de esperar sentada e foi embora, sem levar nada que lembrasse aquele dia!!!

Belkiss Nogueira
La Valigia va.

Beth Joy
Uma pequena mala. Meu Deus, só isso? – pensou, sentada na calçada do outro lado da rua. Era apenas aquilo que levava consigo após toda uma vida? Sim, era! – respondeu mais uma vez a si mesma. Já se fizera essa pergunta na noite anterior, enquanto juntava o que considerou mais importante e essencial à vida que pretendia levar dali em diante. Era pouco, sabia disso. Quase nada. Mas ela queria assim. Pouca roupa, objetos pessoais, seus “amuletos” (algumas pedras naturais que amava) e quase nenhum dinheiro. Loucura? Qualquer um diria que sim. Ela também. Mas precisava desesperadamente viver aquela loucura! Como viveria? Onde iria morar? Como iria se sustentar? As perguntas giravam em sua mente como borboletas esvoaçando ao redor da luz. Respirou fundo, atravessou a rua e pegou a mala. Acenou para o primeiro ônibus que passou, sentando-se com ela no colo. Era incrível o ar de felicidade que iluminava seu rosto naquele momento!

Catarina Aversa
Quando ela limpou o coração guardou tudo na mala: as mágoas, os fracassos, os erros, os desamores. Depois… ora, depois a deixou a beira do caminho e seguiu leve.

Cida Santos
Ela foi ficando esquecida num canto da casa até que seu couro ficou muito seco. Aos poucos ia morrendo como aconteceu com a vontade de viajar da pessoa sua dona.

Cidinha Morelli
Ela se foi. E com ela a lembrança de momentos lindos, vividos em dias mais do que especiais. Ela se foi, e o que sobrou dela? A lembrança mais pungente ficou esquecida no canto do quarto. Hoje dorme rejeitada em um canto qualquer. Ela? Não sabe. Foi embora faz tempo.

Daly P C Daly
Uma bomba ?

Dinalva Tavares
Uma esquina é sempre um lugar apropriado para desaguendar um ebó.

Dirce Puglia
A esperança ficou pra trás. Esquecer o impossível ? Passado, dores, lembranças, saudade, amor, alegria tudo dentro da mala…

Gloria Rendón
Una maleta espera el bus.

Graca Portela
Por que levar pesos? A vida é tão breve!

Isabela Andrade
Deixou tudo que pesava! Vida nova.

Ivana Lopes
Ela ia partir… Mas pensou nele. Ainda havia amor, apesar de tudo. Desistiu! Na pressa de voltar esqueceu a mala. Melhor assim. Não terá que explicar. Será só continuar de onde parou.

Jackie Vellego
Nada do que um dia fora dela deveria permanecer na casa.

Julia Guarilha
Caiu do caminhãozinho aberto da mudança com o solavanco do buraco no asfalto, feito cachorro vira-lata que cai da boleia de caminhão em alguma história contada no interior desse Brasil.

Line Salgado
Tipo, quando a mala cai no bueiro, ela recebe parte das coisas que foram abandonadas como ela. E vai enchendo junto com o bueiro, até transbordar, e trazer de volta as coisas que as pessoas não queriam mais. E como uma “revolta” delas, elas inundam a cidade.

Lucíola Pompeu
Ficou lá para ser levada por outra pessoa.

Lula Ramires
Cansei daqui. Juntei minha tralha toda e parto rumo a outros lugares, outros ares…

Mariana Mantu
Foi ali pedi que alguém lhe pague um café, deixou a mala porque estava pesada e dentro dela não há nada importante: somente roupas velhas e lembranças de uma família que não pode mais suportar a sua presença. A presença de uma pessoa traumatizada, de vida errante… que fez tratamentos por décadas, mas nunca conseguiu se amar e amar seus familiares. Vivia como bicho. Passou anos deitada, dentro de um quarto fétido e escuro. Uma pessoa ferida que, em sua doença, só sabia machucar. Triste.

Marli Lopes Assunção
Maltratada nos aeroportos da vida, não encontrou médico (oficina) que a curasse… Foi abandonada ao relento, sem que seus bons préstimos anteriores fossem reconhecidos.

Marisa Villela
Quando foi embora, nada levou. Nem a mala.

Rosa Villaris Berto
A Mala postal.

Sandra Sampaio Rodrigues
Vidas e lembranças que ficaram para trás. Um novo recomeço o espera!

Silvana Marcia Schilive
Dentro das malas, habitam mistérios

Sylvia Cavasin
Acabou. Dei fim nos presentes e nas cartas de amor.

Sylvia Mejia Pineros
Fernanda la olvidó una tarde cuando soñaba con viajar a Colombia a visitar a su amiga Franga. Vio un perro que estaba perdido y corrió a ayudarle. Después ya no recordaba en donde estaba la maleta.

Vanda Martins
Terrível, mas lembrei dos crimes das malas.

Vera Simonetti
Se for de couro, algum bicho deu a vida a ela.

Wylma Mouradian
Era a mala velha de couro de seu pai, um dos poucos objetos que havia sobrado dele pra ela: uma moeda de ouro (que foi roubada numa reforma), um livro, um espanador de desenhista, uma coleção de CDS do Nelson Gonçalves e a mala. E mais uma vez ela se mudaria da casa… tempos novos: o pai morreu, a mãe demenciando, as crias encaminhadas e ela só. Se será bom ou ruim, ela não sabe, só sabe que é assim a vida e que certas malas estão muito velhas. Ela finalmente deixou a mala que não era dela. Gosta de boleros mas prefere hip hop e eletrônica hoje em dia …

Obrigada, galera do Face!

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