Foto: Fernanda Pompeu
Foto: Fernanda Pompeu

Last updated on Fevereiro 27th, 2018 at 06:43 pm

Escrever e cozinhar, penso nessa semelhança enquanto redijo este post na mesa da cozinha da casa de mamãe. Ela mora num apê no bairro do Sumaré, Sampa. Nove horas da manhã – a cozinha está a todo vapor. Observo a Renata e a Rô separando, cortando, agitando os ingredientes. Puro trabalho!

O meu trabalho também é puro trabalho. Na cozinha do texto uso outros ingredientes. Outros instrumentos. Mas a vontade de alcançar o bom resultado iguala os dois trabalhos: cozinhar e escrever. São atos. Ofícios aprendidos e aperfeiçoados dia a dia.

Esses dois ofícios também convivem com uma injustiça de gênero. Mulheres são a imensa maioria de cozinheiras no mundo, mas os afamados chefs de cusine são em geral homens. Há e sempre houve uma multidão de escritoras, mas são os escritores os mais premiados, resenhados, biografados.

Cozinhar e escrever

Cozinhar e escrever profissionalmente – com as exceções de praxe – não costumam render muitos valores tangíveis. Traduzindo: dinheiro. Mas são ricos no intangível. Outra semelhança é a generosidade desses dois trabalhos. São totalmente voltados para o outro.

O outro é o leitor num caso e o que come no segundo caso. A satisfação deles é a alegria de quem escreve e de quem cozinha. Sem o like, sem o comentário desses outros, o ofício definha. Se ninguém gosta da minha comida, não sou uma cozinheira. Se ninguém lê o que escrevo, não sou uma escritora.

No entanto, as semelhanças param aí. Entra em cena um diferença rotunda. Todo mundo precisa comer. O alimento é garantia de sobrevivência. Sem ele, a gente morre. Simples assim. Repare que em época de crise econômica, 9 entre 10 empreendedores pensam em abrir algo relacionado à alimentação. A frase é: Todo mundo tem que comer.

Já, preto no branco, ninguém morre por falta de leitura. Repare também que em época de crise econômica, as pessoas compram menos livros. Um entre cem mil empreendedores pensará em abrir uma livraria. A frase é: Você está louco. Seu negócio vai abrir e fechar.

Você deve estar pensando que os argumentos acima são uma verdade relativa. Aliás, todas as verdades são parciais. Você pode dizer: A alma também precisa de alimento. A gente não vive só de pão. É fato. Se os humanos só pensassem na sobrevivência, não teríamos saído da Idade da Pedra.

Agora, recém-entrados na Idade Digital vemos palavras escritas por todos os lados. Nunca a oferta de leitura foi tão espetacular. Também aumentou exponencialmente o número de produtores de conteúdo. Podemos chamá-los de escritores? A conferir.

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