Antonio Pimentel, cronista do Face


Qualidade no Facebook

Antonio Pimentel. Arquivo pessoal.
Antonio Pimentel. Arquivo pessoal.

Conheci o Antonio Pimentel em Brasília. Minha missão era fazer uma publicação sobre Proteção de Vítimas e Testemunhas. Antonio era o consultor. Nós dois estávamos sob o guarda-chuva do Ibeac – uma ong paulistana especializada em jovens, mulheres e direitos humanos. Tempo passou. Reencontrei o Antonio Pimental no Facebook e imediatamente me apaixonei por suas crônicas. Ele é um postador avulso. Explico: não tem fanpage, nem blog. Seu textos aparecem ao sabor do acaso. Leia a entrevista e, de brinde, dois bons antonios.

Conte um pouco de você?
Sou mineiro de Belo Horizonte, casado pela segunda vez, tenho um casal de filhos adultos. Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Trabalhei no serviço público estadual durante 15 anos. Saí para trabalhar numa empresa de consultoria em educação e desenvolvimento social. Sigo – agora como autônomo – com a consultoria. Sou um sujeito tímido, quieto no meu canto, mas atento às pessoas e ao meu entorno. Nunca fui um leitor voraz. Li pouco. Tenho forte predileção por textos de jornalistas e cronistas. As reportagens da extinta revista Realidade me fisgaram muito cedo. O jornalista José Hamilton Ribeiro, o romancista Graciliano Ramos, o cronista Fernando Sabino e o jornalista-romancista Antonio Callado são paixões antigas. Escrevi muitos textos técnicos na vida: projetos, relatórios, cartilhas, manuais, comentários avaliativos, sistematizações. Sou coautor de dois livros sobre educação de adolescentes e jovens. Nos últimos anos, busco escrever fora desse circuito. Tornei-me um aprendiz de cronista. Carrego a fama de mal-humorado. Precipitação avaliativa. Pareço sisudo e ranzinza, mas sou alegre e da paz.   

Quando você começou a postar textos autorais no Facebook?
Demorei para entrar nas redes sociais. Ainda sou tímido e focado no Facebook. Em 2012, trabalhando numa organização social de Belo Horizonte, amigas me incentivaram a entrar no Face. Gostei. Lia, curtia, compartilhava. Opinava pouco. Em maio de 2013, tendo como mote uma cena de novela, escrevi meu primeiro texto autoral. Não parei mais.

Qual é o seu objetivo?
De imediato, busco escrever de um jeito legal, compartilhar e receber as avaliações e opiniões de quem me lê. Gosto de ver um texto meu publicado e mais ainda quando ele é curtido, compartilhado e comentado. Para além do imediato, quero aprender a escrever sempre melhor e me dedicar à produção de crônicas.

Você posta com regularidade? Qual?
Não tenho uma regularidade programada, medida, mas publico semanalmente. Às vezes, publico mais de um texto por semana. Pode acontecer também de não publicar nada. Penso em me organizar para publicar dois textos por semana. É uma meta.

O que lhe dá mais prazer em postar?
Meu prazer central está em tornar público um texto que é resultado do meu trabalho: a ideia, o roteiro, a escrita, a ilustração, o conjunto compartilhado. Sozinho, antes mesmo de postar, tenho prazer ao ver o texto pronto. Depois da postagem, o prazer cresce com as curtidas, opiniões e compartilhamentos. De vez em quando, vejo um texto meu compartilhado por uma pessoa desconhecida, lá longe, em outra cidade. Fico feliz com o texto rodando por aí e sendo lido por mais gente.     

Tem algo difícil em postar?
No começo, tive a timidez e a insegurança me rondando. Elas seguem comigo, mas não são obstáculos. Tenho limitações técnicas no uso dos recursos das redes sociais. Como posto regularmente só no Facebook (e, pontualmente, no Linkedin), já consigo resolver os passos básicos de uma postagem simples.

Você interage com seus leitores? Responde aos comentários?
Procuro sempre responder aos comentários sobre meus textos. Agradeço, comento, valorizo e gosto desse movimento. Como escrevo, além de crônicas, textos com opiniões e avaliações sobre a cena política brasileira, já participei de polêmicas aguçadas. Procuro ler e debater com todos. Tive só dois casos azedos no Facebook. Acolho todas as discussões. Não acolho o que avalio ser zombaria de quem só quer desqualificar opiniões. O certo é que os comentários políticos geram tensões e afastamentos. Hoje, cuido melhor deles.

Que dica você daria para postadores autorais?
Digo para todos que transitam pelas redes sociais: invistam nas postagens autorais. Para quem já posta ou quer postar, transmito as dicas que recebi: leia, pesquise, estude, escreva com regularidade, cuide do seu texto. Eu escrevo com um dicionário ao alcance das mãos e pesquiso dúvidas gramaticais na internet. São duas dicas. Outra: escrevo, na maioria das vezes, fora do Facebook. Tenho evitado publicações instantâneas: escreveu, clicou, publicou. Invisto tempo na releitura, maturação e melhoria do texto.   

Já pensou em ter uma página no Face ou um blog?
Ainda não tenho esse tipo de projeto. Já pensei no blog, mas a ideia não evoluiu. Avalio que preciso de mais segurança com a qualidade do meu texto para alçar um voo de blogueiro.

Diga algo que eu não perguntei:
Primeiro, organizei meus textos em grupos temáticos: Cena Social. Cena Política. Causos e Reflexões. Educação e Proteção Integral. Crônicas do Busão e Referências. É uma organização para uso próprio, mas muito útil. Ajuda na descoberta de assuntos. A certa altura, os textos com foco na cena política brasileira transbordaram e tomaram conta do pedaço. Hoje, estou investido nas crônicas, causos e reflexões sobre a vida. Não vou abandonar os comentários políticos, mas quero priorizar outros temas. Um ponto que gosto de destacar: acabei resgatando causos e histórias familiares. Foi um trabalho gostoso e bom para todos, particularmente para os mais novos da família. Memória familiar. Pode ser o fio da meada para quem quer escrever e compartilhar textos autorais.

Segundo, aprendi e aprendo muito com você, Fernanda Pompeu. Sou seu leitor. Acompanho seu blog. Recebi de você, no Facebook, muitas dicas para cuidar melhor do meu texto. Com você e Fernando Carvall, colhi dicas para escrever e ilustrar. Melhorei meus textos. Mais: consegui até fazer ilustrações autorais para alguns deles. Uma beleza!

Leia a seguir duas crônicas do Antonio Pimentel:

PEDAGOGIA NOS ARES
por Antonio Pimentel
Voo noturno de Belo Horizonte para São Luís. Na fila de embarque, uma jovem mulher com três filhos e duas mochilas. Uma menina de uns seis anos. Dois meninos, dois e quatro anos, por aí. Todos acesos, falantes, animados. O menor chorava e gritava de vez em quando. A mãe conduziu o embarque com decisão, bagagens nos ombros, filhos tangidos com comandos firmes.

-Vamos. Não olhem para trás. Olha a porta do avião!

A filha mais velha tentou uma prioridade:

-Mãe, eu quero ficar na janela.

-Não. Eu fico na janela com Dezinho no colo. Você na beirada e Zeca no meio. Pronto!

-Mas eu acho melhor…

-Você é criança. E criança não acha nada. Criança não sabe nada. Vamos!

Segui a turma. Pensei em oferecer ajuda com as bagagens, mas a mulher estava tão decidida e séria que fiquei na minha. Melhor não mexer com mulher tensa, um aprendizado de vida útil para o momento.

-Vamos! Nossa fileira é a sete!

A minha é a oito. Pelo jeito, vamos juntinhos para São Luís. Comecei a pensar na aventura.

Não deu outra, a turma ocupou as poltronas da fileira na minha frente. A menina maior com a poltrona reclinada ao máximo, quase no meu colo. Dezinho chorando. A mãe emitindo diretivas. Zeca me olhando pela greta entre poltronas. Olhava e sorria, com um rosto de bolacha. Mexi com ele, com cautela. Medo da mãe não aprovar. Receio de Zeca pegar intimidade e querer brincar o voo todo.

Dezinho chorou um pouco, mas parou com uma brincadeira dos irmãos. Coisa simples e familiar, impenetrável para estranhos. Os maiores perguntavam, em tom de deboche, cantarolando as palavras:

-Quem disse que ele é feioso? Quem disse que ele é bonito?

E Dezinho ria de rolar. Levantamos voo com risadas. Acho que ele não entendia as perguntas. Ria da sonoridade e dos trejeitos dos irmãos. O voo seguiu com muitas interrogações da meninada.

-Vai demorar muito? Tem comida? Tá muito alto? E se o avião cair?

Medroso, não gostei do rumo da prosa. Tentei dormir. Impossível. A turma fez o percurso no maior agito. A mãe não era agressiva. Era curta e objetiva. Falava pouco. Frases de comando. O que mais me impressionou foi sua pedagogia.

-Obedece! Criança não sabe nada! Criança tem que fazer o que a mãe diz!

Ela repetiu essa diretriz pedagógica algumas vezes, sem vacilações, com forte convicção.

Hoje, quando pais e educadores quebram cabeças para construir uma educação dialógica e participativa, minha companheira de voo afirma uma postura educativa vertical e sem papo.

No começo soou mal. Quase rotulei a mulher. “Grosseira”. “Autoritária”. “Cruel”. Algo por aí. Ainda bem que fiquei no quase. Observei melhor e vi uma mãe capaz de conduzir três crianças sem violência. Ela não foi agressiva com os filhos. Verificava se estavam afivelados. Cuidava de Dezinho. Ria das brincadeiras. Viajou atenta. Não era ríspida. Era incisiva.

No desembarque, vi a família caminhando no saguão. A mãe com Dezinho no colo. Zeca e a menina pulando, alegres. Pelo jeito, uma família cuidada e feliz. A mãe tem uma rigidez exagerada, mas revela competências raras na educação atual: diretividade, capacidade de decisão e coragem de apontar rumos. Não abdica da autoridade materna. Posturas que faltam em muitas famílias e escolas.

Quem diz que isso é feioso? Quem diz que isso é bonito?

 

A LEMBRANÇA MAIS ANTIGA
por Antonio Pimentel
A cena é embaçada, mas segue comigo há anos, vida inteira. A imagem mais nítida é do pontilhão da estrada de ferro sobre o Ribeirão Arrudas, em Belo Horizonte. A imponente estrutura grudou na minha retina. Sou uma criança de uns cinco anos. Estou no ombro do meu pai, um homem alto e magro. Nas alturas, vejo um canto do meu bairro, a Gameleira. É a lembrança mais antiga que tenho. É minha memória afetiva mais duradoura e persistente. Eu, meu pai e o pontilhão, que o dicionário diz ser uma pequena ponte. Estranho. A sonoridade do nome e minha memória de criança tornaram o pontilhão um gigante de ferro fundido.

O que dispara a memória da gente? Não sei, mas arrisco uma resposta. Não vou entrar no mundo dos neurônios, circuitos cerebrais e sinapses, misterioso e labiríntico. Não desconheço a importância da memória como faculdade cognitiva para os processos de aprendizagem. Meu foco é outro. Memória é afeto. É emoção que fica. O menino da Gameleira ficou emocionado com a beleza e estranheza do pontilhão. Nunca tinha visto coisa tão grandiosa. Nunca tinha visto o trem de ferro passar sobre um rio, apoiado numa ponte grandalhona. Uma descoberta.

Mas o pontilhão é só uma ferragem. Meu pai comigo no ombro é o ponto precioso da história. Nós dois juntos numa aventura. Ele me conduzindo para ver e descobrir coisas do mundo. Toda vez que me lembro dessa cena, estar no ombro do meu pai é o que faço questão de afirmar. “Eu vi tudo montado no ombro do meu pai!” Aí está o afeto que faz essa lembrança seguir comigo. Meu pai morreu cedo, muito novo. Tenho muitas recordações dele, mas essa é a primeira e a mais forte. Creio que sua força está na cumplicidade que nos uniu naquele momento antigo.

O poeta Ferreira Gullar, quando voltou do exílio, visitou os parentes em São Luís, na casa onde nasceu e cresceu. Logo que chegou, foi guardar o paletó num quarto e deu de cara com o guarda-roupa de sua infância. Olhou os florões de madeira entalhada que o enfeitavam e viajou no tempo. Gullar disse que aquele momento disparou sua memória, e ele se perguntou: “Onde está a memória? Comigo ou com o guarda-roupa?” Está com o poeta, está nos afetos que ele colecionou naquela casa. Somos nós, humanos, que recordamos. Mas os objetos, aqueles que compuseram cenas carregadas de afetos, são nossos parceiros na emoção de recordar.

O guarda-roupa do poeta Gullar é irmão do trenó do Cidadão Kane. Modestamente, meu pontilhão de ferro tem a mesma força. Puxa o fio da meada de uma vida inteira e me recoloca no ombro do meu pai. Segurança, saudade e emoção. Rosebud.

Leia também outra blogueira mineira: Ana Muniz

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