Arte Régine Ferrandis
Arte Régine Ferrandis

Last updated on janeiro 16th, 2019 at 10:23 am

Pode olhar na maioria dos manuais de redação e jornalismo. Eles vão falar mal das frases feitas e torcer o nariz para os provérbios. Concordo que não devemos exagerar no uso, mas também não tenho preconceito contra frases feitas. Acho que isso tem a ver com mamãe.

Minha mãe sempre foi a czarina dos provérbios. Cresci ouvindo uma frase feita para cada situação. Quando bem pequena, eu acreditava que mamãe era a autora dessas frases. Pensava, com orgulho e certa intimidação: Como mamãe é sabida!

Com o tempo, ela diminuiu a profusão dos ditos, mas mesmo hoje, com a memória quase no zero, ela ainda mantêm um ou dois debaixo da língua. Eles estão sempre como bala na agulha do revólver.

Verdade que agora, aos 84 anos, ela sabe que a vida não cabe em tiradas dogmáticas. Se antes ela usava ditados mais duros: Sua alma, sua palma. Cada cabeça, uma sentença. Hoje ela gosta das brincadeiras. Quando alguém pede licença, ela diz: Licença só na prefeitura. Ou ao ouvir um agradecimento, ela solta: Obrigado não, caixinha!

Sei que muita gente letrada torce a caneta para as frases feitas. Exatamente por elas serem pré-fabricadas etc. Muitos manuais de redação e jornalismo também condenam com veemência os provérbios, alegam que são lugares-comuns, clichês. Porém, creio que a força deles está em serem comuns a todos.

Não conheci ninguém que semeou vento e colheu calmaria, não tenho notícia de super-herói que brincou com fogo e não se queimou.  Quero dizer, para cunhar um adágio são necessárias gerações observando fenômenos recorrentes.

Todas as culturas têm seus provérbios. Chineses e esquimós os têm. Curdos e suecos também. Há ditos rurais (a maioria), urbanos, humanistas, preconceituosos. Eu gosto muito dos nascidos nas cozinhas. Tem caroço neste angu, acho delicioso. E o meu predileto: Não se faz um omelete sem quebrar os ovos!

Creio que este último é o mais sincero de todos. Pois amamos a forma do ovo – tão perfeita e delicada. A escritora Clarice Lispector (1920-1977) no conto magnífico O Ovo e a Galinha, confessa: Eu te amo, ovo. Fato é que se pudéssemos fazer o omelete sem quebrar os ovos, seríamos mais felizes, mais risonhos.

Mas não dá. Às vezes, temos que nos despedir do bom para escapar do péssimo. Decidir entre dois amores, para não terminar sem nenhum. Deixar o lar querido para empreender a grande viagem. Eis um provérbio para gente adulta. Para gente que sabe que não existe omelete sem ovos quebrados.

Abrir mão de coisas e até de pessoas queridas é aula que vamos decorando. Você faz, ou morre de fome. Mas, ao menos, ao quebrar os ovos chegamos no omelete. É uma troca. Bem melhor do que o melancólico leite derramado.

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